22.5.17

ofício de

o oficio de ouvir, de estar à escuta,
o ofício de ver e de prever
um disparo fortuito, uma disputa
que possa de repente acontecer,
o ofício de ler nas entrelinhas,
ofício de sentir de onde sopra
a brisa com as asas miudinhas
ou a língua de fogo que galopa,
ofício de cheirar desde o perfume
ao esturro que alastra na panela,
ofício de no meio do negrume
encontrar uma porta, uma janela,
um farol que desvie os navegantes
das arribas abruptas e cortantes.

Domingos da Mota

[inédito]

21.5.17

simulacro

voz roufenha 
soava
ressoava

ordenava 
saída
de emergência

evacuação
célere
do centro

repetia
ordem seca
grave

voltava a
soar fanhosa
cava

Domingos da Mota

[inédito]

20.5.17

ÚLTIMO OLHAR PARA A ILHA KIRRIN

Viver consiste em ir perdendo coisas:
o leme do ar nos cabelos, os amores,
as lembranças, os remos dos dias felizes.
Ao dizer-lhes adeus com a mão
deixamos no ar a casca da despedida,
vemos passar as bicicletas sem ninguém
a caminho da ferrugem, a arder sem som.
Outros invernos cegaram as lanternas,
apagaram os binóculos e ficamos mais longe.
A cerveja de gengibre bebeu-a o sol do fim  do dia
e a empada de carne, tal como a infância
foi comida pelas moscas.

Jesús Jiménez Domínguez

ensinar o eco a falar, tradução de Maria Sousa, edição do lado esquerdo, exemplar 15/100, Coimbra / Fundão, Abril de 2017

19.5.17

modo de ver

digo? não digo?
ouço e calo?
nego? desdigo?
falo? não falo?
se não consigo
se não embalo
nem contradigo
se não me ralo
se tudo está
dito e contado
melhor será 
ficar calado?
terá ou não
razão de ser
e de dizer
sem interdito
outra versão
modo de ver
e de abranger
o inaudito?

Domingos da Mota

[inédito]

17.5.17

Má para a poesia

A meia idade é terrível para a poesia,
Sobretudo para um surrealista.
Perder a vista é perder palavras.

Que correu mal? Não sabe.
A luz matinal ainda cai nas folhas.
A pessoa que ele era morreu há anos.

Agora, sentado numa poltrona,
Fixa os olhos na parede branca em frente,
Protegendo-os da luminosidade.


Bad for verse


Middle age is bad for verse,
Specially for a surrealist.
A loss of vision is a loss of words.

What went wrong? He doesn't know.
The morning light still falls on leaves.
The man he was died years ago.

Now, sitting in an easy-chair,
He stares at the blank wall in front,
Shading the eyes to cut the glare.

Arvind Krishna Mehrotra

antes de o tigre se abrigar, tradução de Francisco José Craveiro de Carvalho, edições Sérgio Ninguém (Eufeme), 2017

16.5.17

Faduncho do malware

   no nosso computador
     o fado é o software

     Vasco Graça Moura


se o fado é o software,
que fazer quando o faduncho
dissemina o malware
como se fosse caruncho
no disco, no disco rígido
de qualquer computador,
e o disco fica frígido,
carregado de estupor?
limpar o vírus? pagar
o resgate em bitcoins,
como decreta o hacker
autoritário, esquizóide,
no espaço cibernético,
será útil? será ético?

Domingos da Mota

[inédito]

15.5.17

Caminho das pedras

O chão que pisas, chão de terra
Dura, saibro, seixos, pedras, erva
Seca, tojo e urtigas,
E a secura das pernas
A correr Ceca e Meca,
E as pegadas visíveis dos sapatos
E o rasto das sandálias e dos pés
E os espinhos dos cactos e dos cardos:

E se um veio da fonte de Castália
Transvazasse da nascente de água
Pura e jorrasse entre as dunas
Do deserto, oásis no meio da secura,
Da aridez de quem trilha ou chega perto
Do caminho das pedras e calhaus --
Farto de serpentes
E lacraus?

Domingos da Mota

[inédito]

9.5.17

Ensaio sobre a visão

    Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.

     José Saramago


Se podes olhar,
Se podes ver,
Se podes reparar,

Olha em redor,
Repara no que está
A acontecer,

Com minúcia,
Detalhe,
Pormenor.

Não deixes
Porém
De comprovar

Se o que vês
É real
Ou uma visão,

Um transtorno
Delirante,
Singular,

Acaso
Uma suposta
Aparição.

Domingos da Mota

[inédito]

7.5.17

e, de súbito

porque hoje é segunda-feira
e, de súbito, domingo,
uma semana inteira
mais veloz que um relâmpago,
ou como a vida se abeira
do seu fim, cheia de espanto.

Domingos da Mota

[inédito]

6.5.17

Sonâmbulo

Foram muitos os sonhos e, sonâmbulo,
com os olhos abertos, às escuras,
passou noites em volta do preâmbulo
sem entrar no miolo das leituras;
e mal ouvia o galo que espalhava
o seu canto diurno, matutino,
voltava para a cama e dormitava
até que o acordasse o sol a pino.
Foram muitos os sonhos e utopias
que assumiu sem cuidar das sequelas,
abraçando o real e as fantasias
(a contar mais carneiros que estrelas),
mas apesar do tempo dissipado,
não chora sobre o leite derramado.

Domingos da Mota

[inédito]

5.5.17

que fazer ante a aversão

dizer cobras e lagartos
das lágrimas de crocodilo
e engolir alguns sapos
maiores que proboscídeos,
será melhor ou pior
que beber óleo de rícino,
sabendo do amargor
indigesto, amaríssimo?

que fazer ante a aversão
que tal dieta produz?
defender a abstenção
ou carregar essa cruz
que repudia a suástica
obstinada e fanática?

Domingos da Mota

[inédito]

29.4.17

e o sopro

cuidados continuados:
oxalá não carecesse
de receber os cuidados
enquanto sobrevivesse.

(tomara, se descuidassem
esses cuidados de mim
e que jamais precisassem
de me acudir). sendo assim,

quem dera, cuidados tenha
quem de cuidados careça,
como a fogueira de lenha

enquanto dure e aqueça
e o lume se mantenha
e o sopro não pereça.

Domingos da Mota

[inédito]

27.4.17

Desmemória

Só hoje me lembrei que me esqueci
de falar com alguém, de lhe dizer
que a visita que há muito prometi,
não deverá, tão cedo, acontecer;
e mesmo que não possa, para já,
explicar-lhe o porquê do impedimento,
nem tudo o que me prende e tem por cá,
é razão para um tal esquecimento,
mas antes o efeito da lacuna,
da falha que aumenta com a idade
e que ouso apodar de desmemória:
deslembrança real, inoportuna,
que tende a sombrear a claridade
de quem desata os fios duma história.

Domingos da Mota

[inédito]

26.4.17

[Quem se cuida descurando]

Quem se cuida descurando
os cuidados que devia
desmazelando-se quando
não cuida da arritmia
nem sequer da tensão alta
dos níveis de glicemia
e da dor que sobressalta
arrepanha e arrepia
qual incisão duma lâmina
acerada fina fria
que se crava e se derrama
ou de súbito fulmina:
quem se cuida não infama
nem deprecia a vacina.

Domingos da Mota

[inédito]

23.4.17

PARA UM LIVRO

O tempo que passei fechado sem
nenhum leitor, justificou ser
imolado pelas traças.

Inês Lourenço

COISAS QUE NUNCA, &etc, 2010