16.10.17

Pirómanos

De pirómanos
reais e virtuais
que ateiam e propagam
os incêndios

até que quase tudo fique
em cinzas;
e das cinzas renascem
com as línguas de fogo

mais ávidas
de achas
que deitam na fogueira

impunemente,
de pirómanos reais
quem nos defende?

Domingos da Mota

[inédito]

14.10.17

Grosso modo

Deixa o tempo maturar
numa gaveta os poemas,
e corta, volta a podar
pretensos filosofemas,
já que muitos, quase todos
são apenas um esboço
mal parido, grosso modo,
muita banha e pouco osso;
apura os ossos do ofício
até que a banha derreta,
ainda que o sacrifício
seja duro e a gaveta,
cheia de mofo e de traças,
multiplique as ameaças.

Domingos da Mota

[inédito]

12.10.17

[Deu por si]

Deu por si
(arranjar um adjectivo para aqui)
no fundo da vida.

Francisco José Craveiro de Carvalho

Quatro Garrafas de Água, Ilustrações de João Sobral, Companhia das Ilhas, Setembro de 2017

4.10.17

VARIAÇÃO

Depois da morte que realidade
é a de termos existido? Há

porventura um passado para a morte?
O que é ter existido quando o real

se moveu para o mundo seu contrário?
Vive ainda a linguagem

quando os órgãos da fala que produzem
o canto se perderam e os lábios

vivem só na memória de por eles
passarem as palavras?

Gastão Cruz

EXISTÊNCIA, Assírio & Alvim, Setembro 2017

1.10.17

Areia movediça

     (a partir da leitura da Ode à Mentira, de Jorge de Sena)


Mais fundo que a fundura dos abismos
Desceis, descereis sempre, descereis,
Usando e abusando de eufemismos,
A areia movediça que sabeis
Ser o campo minado da mentira,
Lavrado como tendo a seu favor
A verdade absoluta, que delira,
Rodeada de pasmo e de estupor;
Mas soterrado o chão, perdido o pé,
O halo da certeza cai a pique
E arrasta consigo o que até
Aparentava ser o muro, o dique
Da verdade absoluta, insofismável,
Agora numa queda inexorável.

Domingos da Mota

[inédito]

30.9.17

A estação impossível

O poema exprime-se em frases entrecortadas
linhas da corrente, irrisórias explosões
mas espera qualquer coisa
suficientemente brilhante
qualquer coisa
para lá dos caudais escoados
que no alto erga
a estação impossível
esse momento em que a língua dos homens
não possa mais mentir

José Tolentino Mendonça

Teoria da Fronteira, Assírio & Alvim, Maio de 2017

25.9.17

Diz-que-diz-que

     Desceis, descereis sempre, descereis

     Jorge de Sena


Mais fundo que a fundura dos abismos
desceis, descereis sempre, descereis,
usando e abusando de eufemismos
que fazem das palavras que dizeis
a areia movediça onde se atola
a mentira maior que a perna curta
e que mesmo atascada, desenrola
a língua venenosa e corrupta,
diz-que-diz-que de gorjas viperinas,
mais fundas que a fossa das Marianas
ou que as bocas-do-lixo, sibilinas,
que propagam calúnias levianas
e fazem do embuste o santo-e-senha
do ataque viral que mais convenha.

Domingos da Mota

[inédito]

15.9.17

SEGUNDO RETRATO

De cerúleo gabão, não bem coberto,
Passeia em Santarém chuchado moço,
Mantido às vezes de sucinto almoço,
De ceia casual, jantar incerto:

Dos esburgados peitos quase aberto,
Versos impinge por miúdo e grosso;
E do que em frase vil chamam caroço,
Se o quer, é vox clamantis in deserto:

Pede às moças ternura, e dão-lhe motes!
Que tendo um coração como estalage,
Vão nele acomodando a mil pexotes:

Sabes, leitor, quem sofre tanto ultraje,
Cercado de um tropel de franchinotes?
É o autor do soneto -- é o Bocage!

Bocage

POESIAS, Os Grandes Clássicos da Literatura Portuguesa, Colecção dirigida por Vasco Graça Moura, Editora Planeta DeAgostini, S.A., Lisboa, 2003

12.9.17

DE LONGE

Vêm de longe.
Sobre as mãos, sobre o chão caem.
Nada pode detê-las.
Entram pelo sono: redondas
grossas amargas.
E cintilantes.
Estrelas. Ou lágrimas.

Eugénio de Andrade

PEQUENO FORMATO, edição fora do mercado destinada aos amigos da Fundação Eugénio de Andrade, Porto, Fevereiro de 1997

2.9.17

Universidade de verão

Uivos, latidos,
pios, crocitos
& cacarejos,
guinchos & gritos
graves & agudos,
quem os ateia,
lança do palco
para a plateia?

O arrazoado
de alto coturno
é debitado
com ar soturno
& os alunos
arrebanhados
vestem a pele:
são amestrados..

Domingos da Mota

[inédito]

1.9.17

POSTERIDADE

Um dia eu, que passei metade
da vida voando como passageiro,
tomarei lugar na carlinga
de um monomotor ligeiro
e subirei alto, bem alto,
até desaparecer para além
da última nuvem. Os jornais dirão:
Cansado da terra poeta
fugiu para o céu. E não 
voltarei de facto. Serei lembrado
instantes por minha família,
meus amigos, alguma mulher
que amei verdadeiramente
e meus trinta leitores.. Então
meu nome começará aparecendo
nas selectas e, para tédio
de mestres e meninos, far-se-ão
edições escolares de meus livros.
Nessa altura estarei esquecido.

Rui Knopfli

USO PARTICULAR (POEMAS ESCOLHIDOS) com prefácio de António Cabrita, do lado esquerdo, Coimbra / Fundão, Julho de 2017

28.8.17

status quo


sta
tus
quo
sta

tus
quo
sta
tus

quo
sta
tus

quo
sta
tus

Domingos da Mota

[inédito]

27.8.17

GÊNESE II

no princípio era o verbo
uma vaga voz sem dono
vagando pela via láctea.

depois veio o sujeito
e junto com ele todos
os erros de concordância.

Gregorio Duvivier

É AGORA COMO NUNCA ANTOLOGIA INCOMPLETA DA POESIA CONTEMPORÂNEA BRASILEIRA, Organização e apresentação de Adriana Calcanhotto, Edições Cotovia, Lda., Lisboa, Abril de 2017

12.8.17

A ESCALADA

       (segunda paráfrase da indiferença)



Primeiro
começaram com as provocações
as carrancas e as bravatas:

mar de fogo, de um lado;

fogo e fúria, do outro.

Depois

conjugaram-se paradas e desfiles
e manobras militares em terra mar
e ar e caças e bombardeiros 
e submarinos e porta-aviões
e mísseis e ogivas nucleares
e reuniões de conselhos
de insegurança e sanções e mais
sanções e reptos
e mais provocações,

mas como era longe

e os cães de guerra ladravam
do outro lado dos oceanos,
não me importei;

(não se importaram também

os órgãos de comunicação social,
cá do sítio, que nos seus noticiários
davam mais tempo de antena
e mais espaço nas páginas 
dos jornais a um golo, a um fora 
de jogo, a uma transferência
multimilionária de um jogador
de futebol, ou às pernas boleadas
de uma actriz desconhecida no areal
do Meco, que a todas as ameaças
que troavam nos ares,
preocupando-se os administradores
e as redacções com qualquer futilidade
que pudesse aumentar as tiragens
e os níveis de audiências.)

Se

um dia destes 
entre os poderosos senhores 
da guerra houver um, com o seu
estado-maior, que em vez da 
escalada verbal, 
decida premir o gatilho
ou carregar no botão,
chegarei a tempo 
de me importar?

Domingos da Mota


[inédito]


9.8.17

LITANIA

mar de fogo
fogo e fúria
fogo e fúria
mar de fogo

fogo e fúria
mar de fogo
mar de fogo
fogo e fúria

mar de fogo
mar de fogo
mar de fogo

fogo e fúria
fogo e fúria
fogo e fúria

Domingos da Mota

[inédito]

8.8.17

MANIA DO SUICÍDIO

Às vezes tenho desejos
de me aproximar serenamente
da linha dos eléctricos
e me estender sobre o asfalto
com a garganta pousada no carril polido.
Estamos cansados 
e inquietam-nos trinta e um
problemas desencontrados.
Não tenho coragem de pedir emprestados
os duzentos escudos
e suportar o peso de todas as outras cangas.
Também não quero morrer
definitivamente.
Só queria estar morto até que isto tudo
passasse.
Morrer periodicamente,
Acabarei por pedir os duzentos escudos
e suportar todas as cangas.
De resto, na minha terra
não há eléctricos.

Rui Knopfli

USO PARTICULAR (POEMAS ESCOLHIDOS) com prefácio de António Cabrita, do lado esquerdo, Coimbra / Fundão, Julho de 2017