16.1.18

[Quem abocanha]

Quem abocanha
e afronta povos
e países a eito,

com a língua prestes,
pronta, não se põe,
porá a jeito?

Domingos da Mota

[inédito]

14.1.18

METAFÍSICA

No limiar da consciência
um deus espreita. É impalpável
e frio e não é omnipotente
ou omnipresente: Espreita
e facilmente se vence
ou ilude. Não promete
a vida eterna mas lembra
a silenciosa certeza
da morte eterna.
É lúcido e não metafísico,
não existia antes de nós,
mas em nós germina,
em nós vive e connosco
perecerá.
É um deus com que retomamos
diariamente o diálogo interrompido
de Ulisses. Um deus que
surge a horas mortas na
memória do que somos
e não é um deus, mas
o julgamento dos actos que, somados,
somos. É um outro
ser que somos e sendo outro
nos olha com outros olhos
que nossos são. Nos olha
e fita, nos olha e fita
e faz significar olhando.
No limiar da consciência
é um deus que espreita.
E eu, irreligioso,
me confesso ao deus que
em mim me assoma.

Rui Knopfli

Nada Tem já Encanto - Poemas Escolhidos, Selecção, Pedro Mexia, Prefácio, Eugénio Lisboa, Tinta-da-China, Lisboa, Outubro de 2017

11.1.18

Conjugação

Eu tuteio
Tu tuteias
Ele tuteia
Nós dizemos você
Vós dizeis vossemecê
Eles dizem vossa excelência

Domingos da Mota

[inédito]

8.1.18

ou desmazelo

o buraco
a morder
o cotovelo:

porque sim?
porque não?
ou por mero
desmazelo?

Domingos da Mota

[inédito]

5.1.18

Holofotes

A moeda dos afectos
não é d'ouro nem de prata
nem precisa de inquietos
holofotes, sempre à cata
de exibir, mostrar o timbre
ou realçar o sinal
de monta que a distingue
da lata habitual:
os afectos de quilate
não têm preço nem são
a coroa da moeda
que sobe de cotação
sempre que há um dislate
ou se lamenta uma perda.

Domingos da Mota

[inédito]

3.1.18

Para memória futura

Ninguém te livrará 
Do esquecimento

Alguém se livrará?

Ninguém 
Te livrará

Domingos da Mota

[inédito]

1.1.18

[Saber perder nem todos nós sabemos]

Saber perder nem todos nós sabemos;
saber ganhar nem todos conseguimos;
saber olhar o muito que não temos;
saber passar as metas que atingimos;
saber correr parado vendo quem
estuga o passo e acelera e vai
em busca de não sei que coisa nem
se na passada perde o pé e cai;
saber chegar ao pé de quem caiu
e dar-lhe a mão, sorrir-lhe, levantá-lo;
chamar o 112 se o que viu
for mau demais para poder cuidá-lo:
saber no fundo que ignora muito,
quem muito sabe de saber fortuito.

Domingos da Mota

[inédito]

30.12.17

Petúlia

Alonga-se a fila
ao sol ou à chuva
e ninguém refila
impede ou perturba
a força do hábito
que ruma eu sei
em busca do dito
melhor bolo-rei
Sendo a fila longa
e a procura tanta
nem mesmo a delonga
demove ou quebranta
o passo a caminho
do bolo real
pão-de-ló e vinho
etc. e tal

Domingos da Mota

[inédito]

27.12.17

O MORTO: SUA ASTRONOMIA

A astronomia do morto é um grito 
sem resposta. Necessita de um computador
que lhe diga como descer da constelação:
alfabetos escadas da dor. Os olhos entendem sem ouvir

as suas equações do movimento: cinemáticas!
Quanto a mim bastava-lhe a tristeza: peso
cadente das estrelas e os hieroglifos eternos
das esquinas da história e da histeria.

Rancor enxertado por decretos e votos e hinos.
É terrível ser homem moribundo. A morte
levanta a sua constelação para que eu  morra.
Nem há mesmo outra astronomia.

Alexandre Pinheiro Torres

A Flor Evaporada, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1984

24.12.17

O Natal do vazio

O Natal do vazio que se enche
de boas intenções, quase alegria,
nas redes sociais e assim preenche
a grande solidão, penosa e fria;

o Natal que recorda os rituais
da consoada até que a luz do dia,
com o canto do galo, sendo mais
que muitos os que eram da família;

o Natal dos pinhões, par ou pernão,
do sapato ou chinelo que aguardavam
lá onde não havia chaminé:

Natal da ilusão, pura ilusão
das crianças alerta que sonhavam
com a prenda a chegar, pé ante pé.

Domingos da Mota

[inédito]

22.12.17

A Pérola do Bolhão

Pinhões
Nozes
Miolo de nozes
Figos (pingo de mel)

Amêndoas
Avelãs
Castanhas 
(Do Maranhão)

Caju
Tâmaras
Uvas (passas)

Sultanas
Bombons
& etc.

Domingos da Mota

[inédito]

18.12.17

Outro poema de Natal

Não digo do Natal que é da natura
das coisas ser assim, sabendo nós
que a fuga para a frente se afigura
um modo de esquecer quem não tem voz,
mesmo quando os sem voz estão na sopa
dos pobres que se serve nesta altura
e figuram na fila filantropa
que avança com flashes à mistura;
não digo do Natal que a natureza
das coisas tem de ser como se vê,
um modo de apurar, fazer limpeza
ao chão da consciência de quem crê
piamente na caridadezinha,
por amor do Natal que se avizinha.

Domingos da Mota

[inédito]

16.12.17

TRESPASSE

1.


Ainda corri à janela. Já só lhe apanhei a saia
plissada a entrar no autocarro,
fechava-se-lhe a porta
hidráulica nas costas.
E o telemóvel sem bateria,
como avisá-la de que se enganou
e levou a minha pele?
Revisto-me da dela, aguardo.
A sua nudez retempera-me.
Ponho um cd do John Surman,
não há-de ser grave e de alergia
provámos esta noite estarmos vacinados.
Qual dos corações me pulsa
no céu da boca?

António Cabrita

Anatomia Comparada dos Animais Selvagens, Coisas de Ler Edições, Lda., Setembro de 2017

15.12.17

Poema para 2017

Agora que a memória já se perde
e não encontra a fórmula exacta,
no momento preciso, quando deve
distinguir uma ideia abstracta
de uma noção concreta, por exemplo,
que dia da semana, de que mês,
de que ano da graça, qual o duplo
dos amigos reais, se mais que três;
e uma vez que me esqueço até dos nomes
de tantos que comigo trabalharam,
apelidos, alcunhas, sobrenomes,
tendo em conta os neurónios que murcharam,
antes que se apague mais algum,
bem-vindos sejam os meus setenta e um

Domingos da Mota

[inédito]

14.12.17

Como se ervas daninhas

Se as doenças são raras,
incomuns, até raríssimas,
que pensar das aves raras,
com as penas vulgaríssimas,

que fazem pela vidinha
à custa dessa rareza,
como se ervas daninhas,
como se ervas daninhas,

como se ervas daninhas
nefastas, por natureza?

Domingos da Mota

[inédito]

12.12.17

A melga

Quem a vir ali pousada,
sem sibilar, sobre o vidro
da velha porta empenada,
a melga que mal diviso,
poderá interrogar-se
por que razão o insecto
não volteia nem se mexe
nem esvoaça para o tecto
nem amotina o zunido
num voo a pique, estridente,
nem exacerba o ouvido
nem azucrina?
Entrementes,
não estará a melga morta,
colada ao vidro da porta?

Domingos da Mota

[inédito]

9.12.17

[Tantos amigos para quê e quantos]

Tantos amigos para quê e quantos
entre os amigos virtuais serão
desassombrados, destemidos? Quantos
desses amigos reconhecerão
o outro algures se, por mero acaso,
se encontrarem um dia, em carne e osso,
e surgir um momento que dê azo
a que se diga, olá, será que posso
cumprimentá-lo, visto que o seu rosto
parece ser de alguém que não me é estranho,
e seria um prazer, seria um gosto
conhecê-lo melhor: de que tamanho
poderá ser o elo que nos liga --
se valerá a pena que prossiga?

Domingos da Mota

[inédito]

2.12.17

AUSÊNCIA

Uma semana depois,
chego a casa, conto
os gatos, o número
confere. Não mais

dispéptico, nem com
bílis menos escura,
retomo o ritmo de arrotear
a vida; alguém com maior

convicção poderia castigar
aquilo por que espero --
a mesma dança, a mesma
música, na esperança

inglória de ignorar a morte.

José Alberto Oliveira

Telhados de Vidro, N.º 21 . Averno, Lisboa, Agosto. 2016

30.11.17

[Tem o cheiro do pão]

Tem o cheiro do pão
acabado de cozer
no forno de lenha

Sobre a mesa
aninhados
os frutos acabados de colher

Em silêncio
as mãos
seguem essa luz

Manuel Silva-Terra

SER CASA, Editora Licorne