20.8.17

HISTÓRIA

A  história, que vem a ser?
mera lembrança esgarçada
algo entre ser e não-ser:
noite névoa nuvem nada.
Entre as palavras que a gravam
e os desacertos dos homens
tudo o que há no mundo some:
Babilônia Tebas Acra.
Que o mais impecável verso
breve afunda feito o resto
(embora mais lentamente
que o bronze, porque mais leve)
sabe o poeta e não o ignora
ao querê-lo eterno agora.

Antonio Cicero

A Cidade e os Livros, prefácio de José Miguel Wisnik, QUASI EDIÇÕES, Fevereiro de 2006


12.8.17

A ESCALADA

       (segunda paráfrase da indiferença)



Primeiro
começaram com as provocações
as carrancas e as bravatas:

mar de fogo, de um lado;

fogo e fúria, do outro.

Depois

conjugaram-se paradas e desfiles
e manobras militares em terra mar
e ar e caças e bombardeiros 
e submarinos e porta-aviões
e mísseis e ogivas nucleares
e reuniões de conselhos
de insegurança e sanções e mais
sanções e reptos
e mais provocações,

mas como era longe

e os cães de guerra ladravam
do outro lado dos oceanos,
não me importei;

(não se importaram também

os órgãos de comunicação social,
cá do sítio, que nos seus noticiários
davam mais tempo de antena
e mais espaço nas páginas 
dos jornais a um golo, a um fora 
de jogo, a uma transferência
multimilionária de um jogador
de futebol, ou às pernas boleadas
de uma actriz desconhecida no areal
do Meco, que a todas as ameaças
que troavam nos ares,
preocupando-se os administradores
e as redacções com qualquer futilidade
que pudesse aumentar as tiragens
e os níveis de audiências.)

Se

um dia destes 
entre os poderosos senhores 
da guerra houver um, com o seu
estado-maior, que em vez da 
escalada verbal, 
decida premir o gatilho
ou carregar no botão,
chegarei a tempo 
de me importar?

Domingos da Mota


[inédito]


9.8.17

LITANIA

mar de fogo
fogo e fúria
fogo e fúria
mar de fogo

fogo e fúria
mar de fogo
mar de fogo
fogo e fúria

mar de fogo
mar de fogo
mar de fogo

fogo e fúria
fogo e fúria
fogo e fúria

Domingos da Mota

[inédito]

8.8.17

MANIA DO SUICÍDIO

Às vezes tenho desejos
de me aproximar serenamente
da linha dos eléctricos
e me estender sobre o asfalto
com a garganta pousada no carril polido.
Estamos cansados 
e inquietam-nos trinta e um
problemas desencontrados.
Não tenho coragem de pedir emprestados
os duzentos escudos
e suportar o peso de todas as outras cangas.
Também não quero morrer
definitivamente.
Só queria estar morto até que isto tudo
passasse.
Morrer periodicamente,
Acabarei por pedir os duzentos escudos
e suportar todas as cangas.
De resto, na minha terra
não há eléctricos.

Rui Knopfli

USO PARTICULAR (POEMAS ESCOLHIDOS) com prefácio de António Cabrita, do lado esquerdo, Coimbra / Fundão, Julho de 2017

1.8.17

As dobras

Nem tudo é simples, nem tudo,
por muito que assim pareça:
do bramido mais agudo
que de súbito esmoreça
ao sibilo macambúzio
sempre que o mar permaneça
subsumido num búzio
onde o marulho aconteça,
quase tudo é complexo
mesmo aquilo que se pensa
de grande simplicidade:
basta ver o reflexo
do eufemismo que adensa
as dobras da pós-verdade.

Domingos da Mota

[inédito]

29.7.17

PARTE POÉTICA

Não é fácil ser poeta o tempo inteiro.
Eu, por exemplo, nem cinco minutos
por dia, pois levanto-me tarde e primeiro
há que lavar os dentes, suportar os incisivos
à face do espelho, pentear a cabeça e depois,
a poeira que caminha, o massacre dos culpados,
assistir de olhos frios à refrega dos centauros.

E chegar à noite a casa para a prosa do jantar,
o estrondo das notícias, a louça por lavar.
Concluindo, só pelas duas da manhã
começo a despir o fato de macaco, a deixar
as imagens correr, simulacro do desastre.
Mas entretanto já é hora de dormir.
Mais um dia de estrume para roseira nenhuma.

José Miguel Silva

ÚLTIMOS POEMAS, Averno, Junho de 2017

23.7.17

Recado

Se por acaso aqui passa,
não se vê, não deixa rasto,
nem um ar de sua graça
que indicie o tempo gasto
na passagem velocíssima,
mais veloz que um relâmpago,
uma brisa suavíssima,
um nocturno pirilampo.
Pudesse deixar recado,
uma palavra, um sinal,
um gesto, mesmo apressado,
um sorriso matinal,
um aceno, um até já
ou até sempre, sei lá.

Domingos da Mota

[inédito]

22.7.17

AVARENTO

Cobiça
concupiscente a moeda

o metal com um sorriso
avarento infinitesimal

Domingos da Mota

Bolsa de Valores e Outros Poemas, Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010

20.7.17

Toada dos batráquios

Estes batráquios,
sapos e rãs,
velhos terráqueos,
arrastam fãs;
mesmo de louça,
de louça fina,
há quem os ouça

a coaxar,
tal a verrina,
basta escutar.
Com pés de barro
sobre os balcões,
de olho avaro,
camaleões,

quando um cigano
se aproxima,
lançam, disparam
os palavrões,
com ou sem rima.
São uns racistas
pardos, xenófobos

e arrivistas.
Fossem macrófagos
contra as bactérias,
as inimigas.
Mas os batráquios
são candidatos?
Nem-sei-que-diga.

Domingos da Mota

[revisto]


19.7.17

Poemas Quotidianos

10


Depois das 7
as montras são mais íntimas

A vergonha de não comprar
não existe
e a tristeza de não ter
é só nossa

E a luz
torna mais belo
e mais útil
cada objecto

António Reis

Poemas Quotidianos, Prefácio Fernando J. B. Martinho, Posfácio Joaquim Sapinho, Lisboa, Tinta-da-China, Julho de 2017

17.7.17

Só quando os incêndios

Só quando os incêndios
forem naturais:
relâmpagos, raios,
faíscas normais
que os acendam
e soprem e alastrem
(sem mãos escondidas,
fogachos que bastem);

e as trovoadas,
súbitas e secas,
que sejam culpadas,
forem descobertas;
e nem a montante
do fogo que arde
sequer a jusante
soprar com alarde

o rol de granjeios,
de ganhos, proventos,
manobras, maneios,
desculpas, lamentos;
só quando os incêndios
depois do sol-posto
não derem estipêndios,
nem mesmo em Agosto.

Domingos da Mota

[inédito]

12.7.17

A vida de cada um

A vida de cada um
tem duas eras:
antes
e depois
da morte da Mãe

Teresa Rita Lopes

CICATRIZ, Editorial Presença, Lisboa, 1996

6.7.17

Quarto de hotel

     a partir do poema diana no banho, de Vasco Graça Moura


O chape-chape
bem que se ouvia:
alvoroçado,
descompassado,
era, seria
talvez o banho
de quem no quarto
de banho ao lado
estivesse a arder
e se acalmasse
com água fria;
arrepiado,
sobreexcitado,
não era um baque,
era, diria,
banho gelado,
ao fim do dia.

Fosse Diana,
Sara ou Inês,
pelo ouvido,
um grito agudo
ou dois ou três,
digo, diria
que se banhava,
molhava tudo:
(como gemia).

Quem dera vê-la
nessa banheira.
Mas só podia
imaginá-la
em pêlo, nua,
branca ou trigueira,
em carne viva,
como se fosse
brasa contígua
do fogo erecto
que exasperado
subia ao tecto.

Domingos da Mota

PIOLHO  021 [REVISTA DE POESIA], Edições Mortas, Black Sun editores, Abril 2017

3.7.17

MIOPIA

São a janela para a alma, tu disseste, esses olhos;
e que dizes agora, quando a luz os esculpe,

células se dispersam, e a miopia parece sonho,
cortina, sombra de sombra, velo que a luz

fez violentar, lembrado apenas?

Eu atravesso a estrada sem óculos;
da ciência, a sua crença recuperada.

Tu acenas, nitidamente.

Luís Quintais

 A NOITE IMÓVEL, Assírio & Alvim, Março de 2017