18/04/2018

Futurou Fernando Pessoa

Futurou Fernando Pessoa
em Durban ou em Lisboa
que os ossos dos seus heterónimos
seriam depositados nos Jerónimos?

Domingos da Mota

[inédito]

17/04/2018

Clerihews

Quando o Bernardo Soares
de desassossego tinha ares,
pedia ao Álvaro de Campos
um cabaz de figos lampos?

Domingos da Mota

[inédito]

14/04/2018

Pois eu gosto de favas

Pois eu gosto de favas, mas também
de mandar à fava quem me agasta
com risos e soslaios de desdém
ou condutas piores. Chega! Basta
quando a fava me sai no bolo-rei
ou julgo que serão favas contadas
os factos e os feitos que sonhei
e as contas, vendo bem, estão furadas.
E uma vez que não vejo a fava-rica,
peço favas guisadas com chouriça
(não há migas de favas na botica)
e ao bacalhau com favas digo, chiça!,
pois há favas e favas -- e favelas
como espinhas cravadas nas goelas.

Domingos da Mota

[inédito]

11/04/2018

QUEDA NA IMPOTÊNCIA

Lemos napalm e imaginamos napalm.
Como não conseguimos imaginar napalm,
lemos sobre napalm, até conseguirmos
imaginar melhor o que é napalm.
Então protestamos contra o napalm.
          Após o pequeno-almoço, emudecidos,
          vemos fotografias do que o napalm é capaz.
          Mostramo-nos retículas grosseiras 
          e dizemos: Estás a ver, napalm.
          É isto que eles fazem com napalm.
Em breve haverá volumes ilustrados
baratos, com melhores fotografias,
em que mais nitidamente se vê
do que o napalm é capaz.
Roemos as unhas e escrevemos protestos.
         Mas há, ao que lemos, 
         pior que napalm.
         E logo protestamos contra pior.
         Os legítimos protestos que a toda a hora
         nos deixam redigir  dobrar franquear têm impacto.
Impotência, testada em fachadas de borracha.
Impotência que põe discos: canções impotentes.
Sem poder, com guitarra. --
Porém, de malha apertada e tranquilo
o poder lá fora mostra a sua força.

Günter Grass

Às Vezes São Precisas Rimas Destas/Manchmal braucht man solche Reime (1914-2014), Edições Tinta-da-china, Setembro de 2017

08/04/2018

[Uma ideia não se prende]

Uma ideia não se prende
nem se fecha a sete chaves,
por muito que se pretenda
contê-la atrás das grades.

Domingos da Mota

[inédito]

05/04/2018

Desdobrar a sombra

Desdobrar a sombra
para que da escuridão se faça ainda
o amplo passo da luz
nos nomes que há
por dentro da matéria.

Maria João Cantinho

Olga Revista de poesía galega en Madrid, n.º 4| Decembro 2017


04/04/2018

Simplesmente

Raramente estivemos lado a lado,
Quase sempre ficámos frente a frente,
Tu na mesa, no palco ou no estrado
E eu na plateia, simplesmente.

Domingos da Mota

[inédito]

31/03/2018

Uma coisa esquisita

Não é furúnculo nem quisto
nem verruga nem um cravo
nem tão-pouco um panarício
nem sequer uma borbulha;

apenas algo de insólito,
dado o aspecto invulgar
do corpo estranho e anómalo
sobre o dedo polegar.

É uma coisa esquisita,
ouço alguém diagnosticar,

mas nem pomada, unguento
nem a crioterapia
impedem o crescimento
desse nódulo, diria.

Domingos da Mota

[inédito]

28/03/2018

ALGUNS POEMAS PORTÁTEIS

3.

um estudioso de munch
depois do roubo de «o grito»
criticou noutros historiadores da arte
a preocupação em restaurar o quadro
que não tinha voltado intacto
das mãos de ladrões

este estudioso defendia
que munch não ia querer saber de restaurar o quadro
nódoas negras e escoriações
eram apenas a marca de mais uma viagem
e munch ficaria contente em manter o quadro como estava

o estudioso pensava que munch não ia querer saber
porque o pintor amava coisas baratas
e pintava as suas obras com materiais baratos
e mantinha os seus cães perto da sua arte

Tatiana Faia

Um Quarto em Atenas, Edições Tinta-da-china, Lda., Janeiro de 2018

25/03/2018

As palavras são coisas, 2

Se a tua boca as diz
e no teu rosto as vejo,
as palavras são coisas
quando as fere o desejo.

E quando dizes mar,
ou quando dizes norte,
não sei se não me acerco
de um bocado de morte.

Quando dizes barco,
ou quando dizes esfera,
há águas que transbordam
e inundam a terra.

As palavras são coisas,
as palavras são um perigo,
se acaso as pronuncias
quando não estás comigo.

E quando tu adormeces,
muda num sonho fundo,
tudo se desvanece
e deixa de haver mundo.

Bernardo Pinto de Almeida

A Ciência das Sombras, Relógio D'Água Editores, Janeiro de 2018

19/03/2018

[constrói só o fim]

constrói só o fim
do poema

para o resto
é tarde demais

José Anjos

somos contemporâneos do impossível, abysmo, Lisboa, Dezembro 2017

17/03/2018

breviário

de tiros
no escuro,
de fuzilamentos
obscuros,

agora
e a desoras,
livrai-nos,
senhor.

Domingos da Mota



14/03/2018

LEITURA DE JORNAL

Enrolado pelas nuvens duma eternidade,
debruado pelas franjas de catástrofes cósmicas,
soletrado numa lentidão de milénios pela voz sintetizada e virtual
de Stephen Hawking,
podes tu alguma vez imaginar todo o espectro poético
da explosão do campo de Higgs?

100 000 milhões de gigaelectrões-volts não são bastantes
para tornar meta-estável
o campo desse senhor dos buracos negros,
e fazer dele
uma bolha de vácuo.

Tudo à velocidade da luz, é claro, que a partícula de deus
não é um caracol que vá deslizar
a sua vegetal e mansa paciência pelas folhas
do universo.

Mas a criatura irónica, imobilizada,
esse génio oráculo que fala através dos músculos da face,
esse cérebro de engenhos que desdenham de deus,
concentra no seu sorriso um fulgor natural,
talvez único,
e pretende, diz ele, seduzir as enfermeiras
com o sotaque do texas que lhe sai da máquina falante.

É um riso de fichas virtuais, e as meninges tremem
entre placas, galáxias, anjos megalómanos, funcionários divinos,
engenheiros do eterno e promotores da vida futura
na imensidão devoluta dos planetas.

Abençoado profeta, só eu não sei  por que deuses,
fruto absurdo das matemáticas dos tempos,
és o trânsfuga da história,
a imagem ambulatória do belo, próxima verdade de nós,
futuro reprodutor no universo.

Armando Silva Carvalho

A SOMBRA DO MAR, Assírio & Alvim, Julho 2015

12/03/2018

Suite sem vista

V


Era o tempo das cerejeiras agressivas a avançar
pela rapariga dentro.

As paredes falavam, na suite sem vista,
palavras a avançar

pela rapariga dentro.

A rapariga cobriu-as com papel, folhas
arrancadas ao grande livro fechado

à chave
na gaveta da palavra.

Inês Fonseca Santos

Suite sem vista, Abysmo, Lisboa, Janeiro 2018

04/03/2018

desagradeço

batem palmas. agradecem
os seus feitos e feitios
(sofreram pouco ou padecem
na coluna de desvios

vertebrais de quem se curva
e recurva ao passadismo
ou branqueia a mente turva
com manifesto cinismo).

não apoio o retrocesso
nem louvo: desagradeço.

Domingos da Mota

[inédito]

03/03/2018

01/03/2018

[Quem esculpiu o Amor]

Quem esculpiu o Amor
e o colocou junto
desta fonte, pensaria
que poderia subjugar
com água, tal fogo?

Zenodotus

POEMAS DA ANTOLOGIA GREGA versões de José Alberto Oliveira, Assírio & Alvim, Porto Editora, Fevereiro de 2018

28/02/2018

PLÁGIO

     Não é um plágio, é igual.

     António Vitorino d'Almeida


Não é plágio. É cópia,
pois a simples melodia
parece uma fotocópia
(um plágio não, diria),

já que o plágio requer
um não sei quê, o senão
de quem finge não saber
pelo menos o refrão.

Domingos da Mota


26/02/2018

Centro de saúde

III

Ala Norte
Piso Dois
Enfermaria Um
Cama Quinze
vazia.

Carlos Alberto Machado

Olga, Revista de Poesía Galega en Madrid, n.º 4| Decembro 2017