26.4.17

[Quem se cuida descurando]

Quem se cuida descurando
os cuidados que devia
desmazelando-se quando
não cuida da arritmia
nem sequer da tensão alta
dos níveis de glicemia
e da dor que sobressalta
arrepanha e arrepia
na vertigem duma lâmina
acerada fina fria
que se crava e se derrama
ou de súbito fulmina:
quem se cuida não se assanha
nem deprecia a vacina.

Domingos da Mota

[inédito]

23.4.17

PARA UM LIVRO

O tempo que passei fechado sem
nenhum leitor, justificou ser
imolado pelas traças.

Inês Lourenço

COISAS QUE NUNCA, &etc, 2010

18.4.17

Vale o que vale

Um saiu e outro e outro
e mais outro sem dizer
por que razão. Não me afoito
a especular. Podes crer
que não estou para julgar
os que se vão pela porta,
um a um, de par em par
ou em bandos. Pouco importa
o porquê dessa saída,
se vão zangados ou não,
o motivo da partida.
A minha opinião
vale o que vale, e não quero
ser incorrecto ou severo.

Domingos da Mota

[inédito]

17.4.17

A pedra

Levanta a pedra o seu voo
Antigo em busca da cabeça de
Golias:
Atingirá a testa do inimigo
Ou terá de afinar a pontaria?

Domingos da Mota

[inédito]

16.4.17

RITORNELOS

25.

O que se torna tempo
não podes somá-lo
é abissal e infinito
esperar que nasça o princípio
no interior do que só vês de fora.

Não, não podes somá-lo
entre os dedos idênticos
nem à verdade nem à carne,
o que se torna tempo
é este exacto instante
que se cumpriu
se perdeu.

Joana Emídio Marques

RITORNELOS seguido de CÂNTICOS DA FLORESTA e LITANIAS, Desenhos de Bárbara Fonte, abysmo, Lisboa, Fevereiro 2014

15.4.17

MOAB

que filhos há-de
parir a mãe de
todas as bombas?

que terríveis
hecatombes haveremos
de carpir?

que mostrengo do
seu ventre aguardaremos
que expluda

tendo em conta a voz
aguda do desmando
altipotente? 

Domingos da Mota

[inédito]

12.4.17

Os corvos

Podem os corvos
corvejar nos campos
onde espantalhos
e que tais
se agitam?

Rasam.
Crocitam.

Domingos da Mota

[revisto]

11.4.17

O pó das sandálias

Fosse o pó das
sandálias do destino
mas são gases
e bombas e obuses
que destroem
mutilam
assassinam

Domingos da Mota

[inédito]

10.4.17

Terríficas luzes

Os senhores da guerra
Os senhores da morte
Os senhores da terra
Os senhores -- e a corte

De altas patentes
De seus mandatários
Ministros e agentes
Plenipotenciários

Os senhores que ordenam
Detêm poder
Que a tantos condenam
E deixam a arder

Com bombas obuses
Escombros ruínas
Terríficas luzes
Letais assassinas

Domingos da Mota

[inédito]

9.4.17

em língua de gato

Nada sei do amor é uma aragem
(outros o cantem) uma poeira
Nem sou esse o gato que pensa
mas o senhor sim desta passagem

entre ombro e ombreira
Veludo é o pelo me apascenta
Horas tantas que durmas lambo
as quentes sessenta e nove

de lado até caírem co'a calma
ratos que roem riso que move
relógio que pára o clic sem alma

da fotografia Então este tique
do verso rimado como um escroc
passa pra cá a perna e tu vais a reboque

                                                                           (Atenas, 2015)

Carlos Leite

DiVersos, Poesia e Tradução / n.º 25 - dezembro de 2016, Edições Sempre-Em-Pé,
Águas Santas

8.4.17

O MEL DE DEMÓCRITO

Dos átomos seguiste o movimento
dançando turbulento no vazio.
E vergaste-te à força do desejo
que engendra o corpo em outro divisível.
Mas nada mais fruíste do que o mel
na alma até à morte diluído.

José Augusto Seabra

Homenagem aos pré-socráticos (11 poemas), Edição Palavra em Mutação & autor, 2004

6.4.17

Espelho

     a partir de Fernando Pessoa


Se a criança
que fui me visse
(se visse ao espelho
anos depois),
e ao ver as rugas
até sorrisse,
se olhasse bem,
veria dois:
tão diferentes
que são agora.
Mas a criança
ficou lá fora,
anda às amoras,
cai no silvado.
Enquanto eu,
olhando outrora,
vejo que o espelho
está quebrado.

Domingos da Mota

[revisto]

3.4.17

Desabafo

     "Deixem-me largar um desabafo: às vezes os 
       amigos desiludem-nos tanto, porra!"

      Carlos Alberto Machado


Amigos? Inimigos? Quantos? Quem
pode contá-los e dizer bem alto:
ei-los aqui, são estes, sei-o bem,
não me engano nem temo um sobressalto,
um susto de morrer, pois todos eles
são fiéis e não traem como Judas
(descontando o chamado sete-peles
e os vira-casacas), não há mudas
que possam perturbar a confiança,
esta certeza de saber quem é
amigo ou inimigo, nesta andança
que ouso transformar num finca-pé,
pois que sei muito bem qualificá-los
e a todos, mesmo a todos, nomeá-los?

Domingos da Mota

[inédito]