25.6.17

da devastação

primeiro
negociaram o fim da agricultura
de subsistência; e os pequenos
agricultores como já não precisavam
do estrume
para adubar os campos (com as leiras
abandonadas ou em pousio)
venderam o gado
e o tojo que ano após ano era cortado
para a cama dos animais
começou a crescer abundantemente
nos matos e ao redor das casas;

entrementes
acabaram com os guardas
florestais;
e aposentaram  os cantoneiros que 
limpavam as bermas das estradas,
para evitar os fogos;

depois
começou a florescer 
uma casta de altos defensores do
eucalipto
do petróleo verde
e do pinheiro bravo
da fileira de grandes áreas 
de monocultura
amante do papel 

de muito papel
e de tudo o que suba
a cotação na bolsa de valores;

e a floresta 
à mercê do abandono de uns 
e da ganância de outros
alastrou desordenadamente;

e como as trovoadas secas
e as mãos criminosas não se extinguem
por decreto

e os fogos se tornaram  uma
constante nos meses de verão
montou-se uma indústria de combate
aos incêndios
que todos os anos corre o país de lés 
a lés como se fosse uma 
máquina de guerra;

e
entre mortos
e feridos
ninguém
escapa aos efeitos
da devastação.

Domingos da Mota

[inédito]

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